Mensagem

"Não permita que aquilo que você chama de amor se transforme em obsessão.
Amor é liberdade.
Amor é vida.
Jamais prisão ou limitação."

Militão Pacheco

quarta-feira, 30 de março de 2011

Massificação




Ao tempo em que as informações se multiplicam, oferecendo o conhecimento de muitas ocorrências si­multaneamente, aquelas que têm primazia nos veícu­los de comunicação - tragédias, excentricidades, vio­lências e crimes, sexo em desvario, ameaças de morte e de guerra - deixam o indivíduo inseguro. Porque não dispõe de tempo para digerir e bem absorver as notíci­as, selecionando-as, abate-se com facilidade ou excita-se, armando-se emocionalmente para os enfrentamen­tos.

Ocorre-lhe o fenômeno de ruptura da omeostase, que o perturba, física e psiquicamente.
Deixando-se arrastar pelo volume, massifica-se e perde o contato com a própria identidade, passando a ser apenas mais u m no grupo, no qual se movimenta -trabalho, recreios, estudos, em quaisquer atividades -submetendo-se ao estabelecido, ao gosto geral, à von
tade alheia, às necessidades que os organizadores defi­nem, sem o consultarem anteriormente. Os seus pas­sam a ser os prazeres que outrem lhe concede, exigin­do que se sinta bem e se divirta, porqüanto esse é o convencionado. Membro que é do conjunto, as suas são as opções gerais.

A massificação deságua na desumanização, recon­duzindo o ser ao anterior estágio dos impulsos e ins­tintos básicos, que eram próprios para a selva antiga, e agora se apresentam como necessários na moderna, que é construída de pedras, cimento e ferro. Nela, não há liberdade plena, nem harmonia gratificante, porqüanto é artificial, ruidosa, agressiva, propondo contínuo, exaustivo estado de alerta contra os seus métodos e membros igualmente violentos.

A massa humana, como ser grupal, é destituída de alma, de sensibilidade. Em sua marcha voluptuosa avass ala, deixando escombros físicos e psicológicos por onde passa. Porque os seus membros perderam a capa­cidade de ser indivíduos, estouram a qualquer voz de comando, arrastados pelos que os sediciam, e assim agem, para não ficarem esmagados. Os seus tornam-se os interesses coletivos, e tudo é programado, extinguin­do no homem a espontaneidade, que lhe expressa a in­dividualidade, o nível psicológico e de consciência, no qual se encontra.

O ser animal necessita do grupo, conduzido pelo instinto gregário, que o protege dos inimigos naturais e dá-lhe vida, estímulos, facultando-lhe intercâmbios.

O homem, porém, não prescinde da própria intimida­de, dos espaços que ocupa e lhe são fundamentais.

Experimentar mergulhos no Self, fruir momentos de solidão, sem buscar isolar-se, são-lhe atitudes saudáveis, renovadoras, que lhe concedem beleza interior para contrabalançar os choques desgastantes da luta pela vida.

A busca de realização é sempre pessoal e a me ta éigualmente particular, correspondente ao estágio de evolução de cada qual. Não obstante haja similitudes entre as aspirações de criaturas diferentes, os valores anelados possuem características e significados muito especiais, nunca se misturando em uma generalidade comum.

O ser humano é um universo com as suas próprias leis e constituição, embora em harmonia com todos os demais, formando imensa famiia. Massificado, perde a capacidade, ou lhe é impedida, de expressar-se, de anelar e viver, conforme o seu paradigma de aspiração e progresso, pois que, do contrário, é expulso do gru­po, onde não mais tem acesso. Marginalizado, depri­me-se, aflige-se.

Cabe-lhe, porém, amadurecer reflexões para viver no grupo sem pertencer-lhe, para estar em sociedade sem perder a sua identidade, para encontrar-se neste momento com os demais, porém, não se permitir os arrastamentos insensatos e compulsivos da massifica­ção.

Como lhe é necessário viver em grupo, é-lhe im­prescindível s er ele próprio. Sua individualidade deve ser respeitada e mantida, a fim de que experiencie os acontecimentos conforme o seu estado emocional, or­gânico e intelectual.

O ser humano detém possibilidades inesgotáveis, que se multiplicam por si mesmas. Quanto mais as de­senvolve, tanto mais se apresentam aguardando oca­sião de expandir-se.

A aquisição da consciência de si, porém, é resulta­do de um esforço individual concentrado, que a massi­ficação dificulta, porqüanto, no conjunto, basta seguir-se o volume no qual se está mergulhado.

Quando defrontado com o Si profundo, o indiví­duo opta por controlar e bem direcionar a máquina or­gânica ao invés de ser conduzido pelos instintos pre­valecentes. Esse empenho racional converte-se de ime­diato em desafio que o engrandece, oferecendo-lhe sig­nificado existencial, por cujo termo lutará com deno­do.

A massificação permite a liberação negativa e per­turbadora dos conflitos do homem que, somados aos dos demais, torna-se u m transtorno desenfreado, que mais inquieta, na razão direta em que se exterioriza. Tornando-se difícil a identificação da pessoa conflitiva, em razão do grupo que a absorve, o paciente sente-se à vontade para expandir a sua mazela, mascarando-se e parecendo estar em outra realidade. Ao escamoteá-lo, porém, mais lhe aprofunda as tenazes nos alicerces do inconsciente, aturdindo-se e infelicitando-se.

A massa absorve, devora as expressões individu­ais e consolida as paixões perversas. A diluição tera­pêutica do conflito certamente obedece à sua exteriori­zação conscientizada, anulando-lhe a causalidade e preenchendo o seu espaço com formulações amadure­cidas e realizações compensadoras.

Tal a resolução, e a ação dinâmica exige humildade, reconhecendo-se o ser frágil e necessitado, por fim, encorajando-se para o co­metimento libertador.

Vivendo-se uma atualidade globalizadora, inevi­tável, pode-se no entanto, evitar a massificação, pre­servando-se a individualidade, sendo -se autêntico consigo mesmo, enfrentando as imposições do ego e har­monizando-as com o Self.


Joana de Ângelis - Psicografado por Divaldo Franco, da Obra Amor, Imbatível Amor

Nenhum comentário: