Mensagem

"Não permita que aquilo que você chama de amor se transforme em obsessão.
Amor é liberdade.
Amor é vida.
Jamais prisão ou limitação."

Militão Pacheco

sábado, 30 de junho de 2012

O mundo é uma escola





Passamos por tantas tribulações, por tantas provas.
Passamos pela doença física, a doença simples, a doença grave.
Passamos por mutilações, por perdas de capacidades parciais.
Passamos por provas morais das mais variadas, a dificuldade no lar, a acusação indevida.

Temos rescaldos de muitas coisas durante uma encarnação e nos parece que algumas pessoas primam por ter consigo uma grande intensidade de provas, mal acaba uma e já outra se inicia.

São tantas provas que fica difícil de entender numa única experiência a razão de tanta dor.

Mas a Terra é uma grande espaçonave, habitada por habitantes variados, de muitas espécies, que acolhe almas humanas em fase de aprendizagem, seres humanos imperfeitos que necessitam muitas vezes de corrigendas por conta da imperícia, da imprudência ou do descaso.

Assim é que muito bem engendrada a existência tenha a sua oportunidade de permitir a cada espírito que encarna numa criatura humana de aprender, de aprimorar, de evoluir às custas de muitas experiências, cada uma das quais moduladas através das reencarnações.

São sucessivas reencarnações, muitas vezes em palcos completamente diferentes, juntos de grupos espirituais estranhos, mas muitas vezes junto de criaturas com as quais guardamos dificuldades e débitos.

A reencarnação é para ser humano a sala de aula para o aluno.

O aluno que repete é porque não teve bom desempenho.

O ser humano que não teve bom desempenho, não repete a encarnação, mas repete as provas até aprender.

Não há como evitar, essa é a Lei de Deus que encontrou no processo da reencarnação a grande oportunidade para que cada um de nós possa se dar a chance, a condição, o recurso de se aprimorar progressivamente.

Mas, à medida que nós adquirimos conhecimento, à medida que nós temos a possibilidade de compreender melhor os fenômenos da vida, nós nos tornamos mais responsáveis, e por nos tornarmos mais responsáveis, respondemos cada vez mais pelos nossos próprios atos, porque “a quem muito é dado, muito é cobrado’.

Então no passar das encarnações com sucessivos aprendizados, vamos adquirindo conhecimentos que vão se acumulando na memória espiritual, permitindo a cada um de nós a agir melhor na próxima encarnação, e quando não fazemos assim, devemos retornar o mesmo processo numa outra expressão, num outro corpo.

Ocorre que os ciclos de reencarnação no planeta Terra estão se extinguindo nesta atual geração que o planeta movimenta.

O passar dos séculos nos deu oportunidades imensas para o desenvolvimento e evolução.

Mas os tempos já estão se extinguindo, portanto quanto mais precoce for a nossa atitude de aprimoramento, melhores as chances para aproveitarmos a Terra na próxima etapa.

Etapa na qual o planeta está se transformando para alcançar uma outra condição onde só habitarão aqueles que já estejam regenerados, porque o planeta será de regeneração.

As forças vitais se conturbam se confundem, as criaturas humanas se debatem inutilmente, porque o desejo do Altíssimo é um só, o seu aprimoramento.

Por isto não perca tempo, se pretende continuar sendo habitante dessa imensa espaçonave, ainda que numa outra dimensão de vida, já regenerado, trate de se regenerar.

Que Deus abençoe.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Estudar Espiritismo




"Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. Não sabemos como dar esses qualificativos aos que julgam a priori, levianamente, sem tudo ter visto; que não imprimem a seus estudos a continuidade, a regularidade e o recolhimento indispensáveis. Ainda menos saberíamos dá-los a alguns que, para não decaírem da reputação de homens de espírito, se afadigam por achar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras, ou tidas como tais por pessoas cujo saber, cujo caráter e convicções lhes dão direito à consideração de quem quer que se preze de bem-educado. Abstenham-se, portanto, os que entendem não serem dignos de sua atenção os fatos. Ninguém pensa em lhes violentar a crença; concordem, pois, em respeitar a dos outros.

O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. (...)".


Allan Kardec foi quem fez esta importante colocação em o Livro dos Espíritos, capítulo VIII, Introdução, o que consideramos um alerta para os que, ao se aproximarem do Espiritismo o julgariam ou o questionariam sem o devido estudo prévio.

Na vivência diária como espíritas, acostumamo-nos a conversar com as pessoas que estão aproximando-se do Espiritismo e sermos bombardeados por uma série de perguntas, as quais geram respostas que intrigam aqueles que as fazem.

Provavelmente as seguintes respostas deveriam dadas com muita clareza a estas perguntas: O que somos ? De onde viemos ? Para onde iremos ? O que é Deus ? Devo ser bom ? Por que ? ... e assim por diante.

O que toda criatura desapaixonada, equilibrada, sincera e honesta deve fazer, antes de julgar qualquer coisa, de fazer suas críticas a seu respeito, de negá-la ou aceitá-la, é, inicialmente, adquirir as respectivas informações que dizem respeito à sua existência, aproximar-se para o devido reconhecimento da sua natureza, através da pesquisa e do estudo dos fatores relacionados à sua causa, ou dos fenômenos produzidos pelas forças originárias da parte fundamental, podendo desta forma, com conhecimento de causa, tirar suas conclusões, baseadas nos fatos, e formular seu veredicto com justeza, a respeito de tal coisa.

Muitas pessoas aproximam-se do Espiritismo pelos mais variados motivos, no entanto poucas conseguem perseverar no estudo necessário para entendê-lo, ficam à margem, deslumbradas por alguns de seus aspectos e com grandes dúvidas sobre outros.

É por isso que o movimento espírita tem enfatizado ao longo do tempo a necessidade da implantação do estudo sistematizado da Doutrina Espírita em cada centro espírita. Lembrando o memorável Herculano Pires (1914-1979), o Espiritismo ainda continua um "desconhecido", e a maioria , movida pela ânsia de soluções imediatistas, ainda não busca uma nova filosofia de vida, a par de uma explicação para o porquê "do ser, do destino e da dor".

O slogan "Comece pelo começo" utilizada nas campanhas promovidas pela U.S.E. União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, tendo como figura nos cartazes as obras da Codificação (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese) pode parecer óbvio, no entanto constatamos que muitas pessoas que são espíritas ou as que estão estudando o Espiritismo há algum tempo não começaram pelo começo, muitas vezes nem O Livro dos Espíritos chegaram a ler.

Nada mais aconselhável, se quisermos estudar o Espiritismo, do que começar pelo começo e o começo é a Codificação.

Depois de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, podemos citar autores importantes como Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, Camille Flamarion, Herculano Pires, Deolindo Amorin, Eliseu Rigonatti, Yvone A. Pereira, Hermínio C. Miranda, Martins Peralva,Caibar Schutel, Richard Simonetti, Divaldo Franco e muitos outros, além é claro dos autores espirituais Emannuel, André Luiz, Humberto de Campos, Manoel Philomeno de Miranda e vários outros.

Há muito para ler e estudar, torna-se necessário uma boa organização por parte daquele que vai estudar o Espiritismo, para não empregar o tempo de forma equivocada, seja não começando pelo começo, ou lendo obras pseudo-espíritas ou controvertidas, sem pureza doutrinária.

Que cada um analise sua posição perante a pergunta que intitula este artigo e encontre o caminho correto.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Morrer...




Quando morre alguém, sentimo-nos todos tomados por um sentimento de perda e dor. É natural, gostamos da pessoa e desejamos que continue vivendo conosco. Mas, a morte é a única certeza da vida e está enquadrada nos acontecimentos normais da existência de todo mundo. A todo instante, partem jovens e velhos, sadios e enfermos...

E muitos perguntam, talvez temerosos do momento em que também enfrentarão a circunstância e acerto de contas com D. Morte: ela dói? O que ensinam os espíritos a respeito?

Em O Livro dos Espíritos, há um capítulo inteiro sobre o assunto: é o III, do livro segundo, com o título Retorno da vida corpórea à vida espiritual. As questões 149 a 165 esclarecem o assunto. Para não ficarmos em simples transcrição das respostas dadas pelos espíritos, fizemos breve resumo de forma didática para melhor entendimento do assunto. Mas remetemos o leitor à pesquisa direta às questões citadas.

No instante da morte, todo homem retorna ao mundo dos espíritos, pátria de origem;
Uma vez no chamado outro mundo, conserva plenamente sua individualidade;

A separação da alma e do corpo não é dolorosa. O corpo sofre mais durante a vida que no momento da morte;

A alma se liberta com o rompimento dos laços que a mantinham presa ao corpo;

A sensação que se experimenta no momento em que se reconhece no mundo dos espíritos depende do que fizeram em vida. Se foram bons, sentirão enorme alegria. Se foram maus, sentirão vergonha;

Normalmente reencontra aqueles que partiram antes, se já não reencarnaram;

A consciência de si mesmo vem aos poucos. Passa-se algum tempo de perturbação, convalescente, cujo tempo de duração depende da elevação de cada um;

Compreender antes o assunto exerce grande influência sobre o tempo de perturbação, mas o que realmente alivia a perturbação são a prática do bem e a pureza de consciência.

Indica-se estudar o livro O Céu e o Inferno, também de Allan Kardec, onde há diversas descrições do momento da morte e do pós-morte, de espíritos nas mais variadas condições evolutivas. O livro Depois da Morte, de Léon Denis e Obreiros da Vida Eterna, de André Luiz/Chico Xavier também trazem muitas explicações sobre o interessante tema.

Há, também, uma série enumerável de livros de mensagens enviadas por desencarnados aos entes queridos que ficaram. Entre eles, o famoso Jovens no além, de 1975, recebido por Chico Xavier. O filme Joelma 23º andar, baseado no incêndio ocorrido em São Paulo, mostra bem a questão da continuidade da vida.

Não tema a morte. Ela faz parte do processo evolutivo. Viva de maneira prudente, faça o bem que puder e quando soar seu momento, vá sem medo. Mas nunca a busque ou a precipite. Tudo tem seu momento na vida e todos temos algo a fazer num tempo programado. Para aqueles que foram antes, guarde a convicção de breve reencontro e ore pela felicidade deles. Eles receberão a mensagem de seu coração.

Autoconsciência





Um homem desejou construir um lar para viver tranqüilamente com a família.

Mandou um engenheiro e um arquiteto planejarem a casa e os detalhes que lhe pareciam mais convenientes para uma residência cômoda e prazenteira.

Quando começou a construção, recebeu a visita de um amigo, que apresentou várias sugestões mudando o plano inicial.

Entusiasmado com as opiniões, pediu aos técnicos que corrigissem os alicerces, redesenhassem algumas linhas e, com despesas a mais, conseguiu alterar o primeiro projeto.

Posteriormente, outro amigo, e mais tarde outro mais, trouxeram opiniões descabidas que redundaram em alterações absurdas e gastos exagerados.

Ao terminar a construção, a mesma se tornou inabitável, estranha.

Calmamente, ele convocou os mesmos engenheiro e arquiteto e disse como desejava a sua futura casa.

Iniciada a obra, veio alguém apresentar-lhe sugestão, ao que ele contestou:

— Esta casa é para mim e irei fazê-la conforme acredito ser comodidade após ouvir os especialistas em construção. Não alterarei nada, a fim de atender às descabidas opiniões dos amigos, porque a casa dos amigos é aquele monstrengo que abandonei. Está será a minha casa conforme penso e desejo...

A autoconsciência tem dimensão do que é melhor para quem o deseja.

(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 14 de maio de 2001, em Düsseldorf, Alemanha.)

terça-feira, 26 de junho de 2012

O que tendes






Numa passagem do Evangelho de Marcos, no capitulo VIII, versículo V, na descrição do Sermão do Monte ou Sermão da Montanha como queiram, Marcos cita o momento em que Jesus pergunta aos seus apóstolos.

“Quantos pães têm?”

Eles responderam.

“Sete”.

E ali Jesus conseguiu alimentar quatro mil pessoas.

Pois então, evidentemente, nós nos atentamos principalmente para o fenômeno da multiplicação dos pães, porque nós somos muito ligados às questões dos fenômenos, das mágicas, dos prodígios.

Mas em verdade, é que esta lição desta passagem, encerra um ensinamento ainda mais profundo do que simplesmente multiplicar os pães.

Jesus nos pergunta todos os dias, o que tens para me oferecer?

Nós só temos a oferecer migalhas.
Migalhas de caridade, de boa vontade.
Migalhas de disciplina.
Migalhas de alegrias e uma quantidade paupérrima de migalhas de fé.

Ainda assim Jesus multiplica as bênçãos com tão pouco que temos e nos auxilia continuamente.

Se não oferecemos nada, Jesus não terá o que multiplicar.
Mas se oferecermos as nossas migalhas, porque somos verdadeiros mendigos da luz, o Cristo já nos proverá de luz o bastante para nossa jornada na Terra.

Meus irmãos, a cada dia que passa Jesus nos questiona: “O que tendes para me oferecer?” Ou, ainda, “Quantos pães tendes?”

E a nossa consciência, o que pode oferecer?

Que Jesus nos abençoe.

Psicofonia recebida no Nept em 13/06/2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Estudo da obra "A caminho da luz"





Primeira parte:


ESTUDO DO LIVRO – A CAMINHO DA LUZ
(Espírito de Emmanuel)



Em 1939, foi lançada a primeira edição do livro, A Caminho da Luz, pelo Espírito de Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier.
Neste livro, Emmanuel, narra a história da humanidade, mostrando a influência e o trabalho da Espiritualidade na história, sem alterar os fatos, por que a história já vivida e passada é inalterável.

Conheceremos com a leitura destas belas páginas, o trabalho de Jesus e seus prepostos, mostrando que não estamos largados no mundo, somos sempre acompanhados por Deus e pelo Cristo.

Como podemos perceber, o planeta está passando por uma transformação moral e física, aliás, o planeta nunca esteve estático, a vida está sempre se renovando, se transformando, e isso tudo, segue as Leis Divinas, e é acompanhado por Jesus, co-criador do planeta e também pelos Espíritos que fazem parte de sua equipe.

Todas as transformações que o planeta passou desde o momento em que Deus, entregou a co-criação, para Jesus, não aconteceu em dias, ou em meses, mas, em bilhões de anos, imagine a grandeza de Jesus, se o planeta tem bilhões de anos, ele como co-criador, já era Espírito Puro, quantos bilhões de anos Jesus tem na nossa frente.

Aprendemos ao ler as páginas deste livro, que tudo passa tudo perece na vida, poder, títulos, as civilizações e até os corpos, ficando somente o Espírito que é imortal e eterno, aprendendo, trabalhando e interferindo na vida, e assim, evoluindo na direção do Criador, até se tornar puro.

Tudo no universo está interligado, vai chegar o momento que não vamos mais precisar das línguas, todos vamos nos comunicar através da linguagem do pensamento.

Os Espíritos mais evoluídos visitam outros planetas, e depois reencarnam na Terra ou em outro mundo semelhantes ao nosso ou inferiores, como missionários, para auxiliar no progresso destes planetas.

Muitos destes Espíritos ao reencarnarem aqui, por exemplo, foram mal compreendidos, perseguidos, mas, mesmo assim deixaram a sua semente.

E Deus sustenta em suas Divinas mãos, toda a vida, toda a harmonia do universo. Somente a vontade de Deus, prevalece sobre tudo e todos.

Apesar de todas as guerras, toda rivalidade, todos os títulos, a alma humana, sempre vai evoluir, sempre vai buscar o amor e o bem, que é o que verte de Deus, Criador do universo, e o que rege a vida.

Tudo na história da humanidade passou, só Jesus que não, Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Seu Evangelho de amor, e luz, que ilumina nosso caminho, é o roteiro certo, o guia mais perfeito.

No Evangelho de Jesus, encontramos o consolo para nossas dificuldades, as virtudes que devemos ter, como deve ser nosso comportamento diante da vida, do próximo e de nós mesmos.

colaboração de Georgia Maria Roca

sábado, 23 de junho de 2012

Vidência e Clarividência





Lendo o livro "No Invisível", de Léon Denis, em nosso grupo mediúnico, quando o texto nos remeteu a uma questão recorrente: afinal, qual é a diferença entre a faculdade dos médiuns videntes e a clarividência?

Os conceitos se acham ambientados dentro da obra de cada autor, e podem variar leve ou notadamente quando analisado em obras de autores diferentes, e até mesmo em livros diferentes do mesmo autor.

No estudo do Espiritismo precisamos conhecer bem a terminologia empregada pelos seus principais contribuintes, a começar de Allan Kardec e dos clássicos, a fim de não confundirmos seu emprego.

O termo clarividência não foi criado por Kardec, embora tenha sido redefinido pelo codificador diante dos estudos dos fenômenos espirituais. Isto nos obriga a conhecer os significados que se encontram em teorias não espíritas, especialmente as que antecederam o Espiritismo e influenciaram o codificador.

Definição e Fenômenos de Clarividência

O termo clarividência surge pela primeira vez com seu sentido próprio na parte de "O Livro dos Espíritos" que trata da emancipação da alma. Na questão 402, Kardec trata de uma "espécie de clarividência" que acontece durante os sonhos, onde a alma tem a faculdade de perceber eventos que acontecem em outros lugares. Neste ponto, portanto, ele emprega o termo como uma faculdade de ver à distância sem o emprego dos olhos. Os sonâmbulos seriam capazes deste fenômeno devido à faculdade de afastamento da alma de seu respectivo corpo seguida da possibilidade de locomoção da mesma. (q. 432 LE)

Pouco depois, na questão 428, ele indaga aos espíritos sobre a "clarividência sonambúlica". Ele certamente se refere à faculdade já bastante descrita na literatura que trata do sonambulismo magnético, que, na questão 426, os espíritos consideraram equivalente ao sonambulismo natural, com a diferença de ter sido provocado. Os espíritos lhe respondem que as duas faculdades possuem uma mesma causa: a percepção visual é realizada diretamente pela alma do clarividente. Logo a seguir, Kardec pergunta sobre os outros fenômenos da clarividência sonambúlica (q. 429) como a visão através dos corpos opacos e a transposição dos sentidos. Os espíritos reafirmam que os clarividentes vêem afastados de seus corpos, e que a impressão que afirmam de estarem "vendo" por alguma parte do corpo, reside na crença que possuem que precisam deste para perceberem os objetos. A existência da faculdade sonambúlica não assegura a veracidade de todas as informações obtidas neste estado, com o que concordam os espíritos (q. 430).

Dando continuidade à linha de indagações sobre o sonambulismo, Kardec pergunta de onde se originam os conhecimentos apresentados pelos sonâmbulos que eles não possuem em estado de vigília e que não se explicam diretamente pela percepção sonambúlica. Os espíritos argumentam que em estado de emancipação, os sonâmbulos podem acessar conhecimentos que lhes são próprios, originários de existências anteriores, ou de outros espíritos com quem comunicam-se (q. 431).

Faz sentido, então, questionar se todos os sonâmbulos são médiuns sonambúlicos, distinção esta que Kardec aprofundará em "O Livro dos Médiuns". Ainda em "O Livro dos Espíritos", afirma-se que a maioria dos sonâmbulos vê os espíritos, mas que muitos deles podem crer que se trate de pessoas encarnadas, por lhes ser estranha a idéia de seres espirituais.

Êxtase e Clarividência

Kardec distingue os fenômenos sonambúlicos do êxtase e da dupla vista. O êxtase seria um sonambulismo profundo. Neste estado ocorreria o contato com espíritos etéreos, o que causa as impressões geralmente registradas pelos santos. Na questão 455 encontra-se a seguinte descrição:

"Cerca-o então resplendente e desusado fulgor, inebriam-no harmonias que na Terra se desconhecem, indefinível bem-estar o invade: goza antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que pousa um pé no limiar da eternidade. No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somente, pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente por um fio, que mais um pequenino esforço quebraria sem remissão. Nesse estado, desaparecem todos os pensamentos terrestres, cedendo lugar ao sentimento apurado, que constitui a essência mesma do nosso ser imaterial "

Kardec, entretanto, admite que muitas vezes o extático é vítima da sua própria excitação, fazendo descrições pouco exatas e pouco verossímeis, podendo chegar a ser dominados por espíritos inferiores que se aproveitam da sua condição.

Êxtase, portanto, é um estado sonambúlico profundo caracterizado pela perda ou extrema redução da consciência dos eventos que acontecem ao redor do extático, alterações emocionais e um certo sentimento de "sagrado", onde o mecanismo básico é a emancipação da alma.

Lucidez e Clarividência

No livro "Definições Espíritas", Kardec define a clarividência como a "faculdade de ver sem o concurso da visão" e logo depois como "percepção sem o concurso dos sentidos". Posteriormente Kardec distingue clarividência de lucidez, da seguinte forma:

"A palavra clarividência é mais genérica; lucidez se diz mais particularmente da clarividência sonambúlica." (KARDEC, 1997. p. 85)

Dupla Vista e Clarividência

A dupla vista, ao contrário, seria a faculdade de perceber pelos olhos da alma, sem que para tal, seja necessário o estado sonambúlico, em outros termos, sem que o percipiente entre em transe profundo.

A dupla vista seria uma faculdade permanente das pessoas que a possuem, embora não estejam continuamente em exercício da mesma. (q. 448) É uma faculdade que se manifesta de forma espontânea, embora a vontade de quem a possui tenha um papel em seu mecanismo e possa desenvolver-se com o exercício. Da mesma forma que a mediunidade, há organismos que são refratários a esta faculdade, e a hereditariedade parece desempenhar algum papel na transmissão da mesma. Kardec fez uma descrição das alterações psicofísicas que o portador da dupla vista ou segunda vista costuma apresentar (q. 455):

"No momento em que o fenômeno da segunda vista se produz, o estado físico do indivíduo se acha sensivelmente modificado. O olhar apresenta alguma coisa de vago. Ele olha sem ver. Toda a sua fisionomia reflete uma como exaltação. Nota-se que os órgãos visuais se conservam alheios ao fenômeno, pelo fato de a visão persistir, mau grado à oclusão dos olhos. Aos dotados desta faculdade ela se afigura tão natural, como a que todos temos de ver. Consideram-na um atributo de seus próprios seres, que em nada lhes parecem excepcionais. De ordinário, o esquecimento se segue a essa lucidez passageira, cuja lembrança, tornando-se cada vez mais vaga, acaba por desaparecer, como a de um sonho. O poder da vista dupla varia, indo desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes."

Kardec, em suas "Obras Póstumas" (1978, p. 101) faz uma afirmação preciosa para a distinção entre dupla vista e clarividência, que consideramos por bem transcrever:

"No sonamabulismo, a clarividência deriva da mesma causa; a diferença está em que, nesse estado, ela é isolada, independe da vista corporal, ao passo que é simultânea nos que dessa faculdade são dotados em estado de vigília."

É importante frisar que em Kardec o sonambulismo natural, o sonambulismo provocado ou magnético, o êxtase e a dupla vista são faculdades que possuem o mesmo mecanismo: a emancipação da alma. A clarividência seria um fenômeno passível de ocorrer nos dois primeiros estados. Embora a clarividência seja um fenômeno predominantemente anímico, há a possibilidade de ocorrerem percepções do mundo dos espíritos, ou seja, de sua associação com faculdades mediúnicas. Para evitar confusão, consideramos adequado o emprego do termo clarividência mediúnica.

Médiuns Videntes e Dupla Vista

Em "O livro dos médiuns" (parágrafo 167), Kardec considera como médiuns videntes as pessoas dotadas da capacidade de ver os espíritos. Nesta categoria temos os médiuns capazes de ver os espíritos em estado de vigília e os que apenas a possuem em estado sonambúlico ou próximo deste. A faculdade não é permanente, estando quase sempre associada a uma crise passageira. Podemos substituir o termo crise por transe, entendendo que por crise passageira o autor se refere aos chamados estados sub-hipnoidais ou de transe superficial.

As pessoas dotadas de dupla-vista podem ser consideradas médiuns videntes, as que percebem os espíritos durante os sonhos, não. As aparições acidentais e espontâneas não configuram a existência desta faculdade, que permite ver qualquer espírito que se apresente. Kardec afirma que este tipo de médiuns julga ver os espíritos com os olhos, mas tanto os vêem com olhos fechados quanto com olhos abertos.

A faculdade pode ser desenvolvida, mas Kardec recomenda que não se provoque este tipo de faculdade, para que o suposto médium não se torne joguete da sua imaginação. Ele considera prudente não dar crédito senão ante provas positivas, como " a exatidão no retratar Espíritos que o médium jamais conheceu quando encamados". Ao advogar a possibilidade de desenvolvimento da faculdade, entendemos que Kardec se refere às pessoas já dotadas da mesma, e não da errônea idéia de desenvolvimento da mediunidade em quem quer que seja.

Médiuns Sonambúlicos e Clarividência

Curiosamente, Allan Kardec distingue em duas classes de médiuns os médiuns videntes e os médiuns sonambúlicos. Ele justifica esta classificação dizendo que sonambulismo e mediunidade são "duas ordens de fenômenos que freqüentemente se acham reunidos". (parágrafo 172)

...o Espírito que se comunica com um médium comum também o pode fazer com um sonâmbulo; dá-se mesmo que, muitas vezes, o estado de emancipação da alma facilita essa comunicação. Muitos sonâmbulos vêem perfeitamente os Espíritos e os descrevem com tanta precisão, como os médiuns videntes.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dogmas





Vamos analisar uma palavra relativamente utilizada em estudos religiosos: dogma. É um pouco longo, mas espero que não incomode e que valha a pena a leitura.

Diga-se antes de tudo que este termo se origina do verbo grego «dokein» (pensar), significando, na verdadeira acepção etimológica: pensamento, doutrina, convicção. Os antigos queriam significar com essa palavra unia firme resolução e uma decisão de autoridade, quer no campo da Ciência, quer no da vida do Estado. Neste Último sentido encontramo-la no bojo da própria Bíblia, como podemos verificar dos seguintes exemplos:

“Se bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos, e nas próprias mãos dos que executarem a obra eu pesarei deles dez mil talentos de prata que entrem para os tesouros do rei” (Et. 3-9);

“Saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscaram a Daniel e aos seus companheiros, para que fossem mortos.” “Agora, pois, ó rei, sanciona o interdito, e assina a escritura, para que não seja mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar” (Dn. 2-13 e 6-8);

“Naquele dia foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se” (Lc. 2-1); “Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos, para que observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém.” “Aos quais Jasom hospedou. Todos estes procedem contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei” (At. 10-4 e 17-7);

“Aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz” (Ef. 2-15);

“Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl. 2-14);

“Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram que a criança era famosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei” (Hb. 11-23).

Ora, com o tempo a palavra foi ganhando sentido mais radical e acabou por traduzir o ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema.

Acabaria por significar, ainda, o conjunto das doutrinas fundamentais do Cristianismo, segundo proposta dos alexandrinos. Desde o quarto século, paulatinamente tem início a restrição do termo às doutrinas de fé. O dogma, assim, não há de ser palavra tão feia, tal como muita gente pensa. Até que é bastante inocente. Começa entretanto a assustar quando é adjetivada. Por exemplo: o dogma católico (“dogma catholicum”).

Ganha então um significado Inteiramente novo e muito diferente daquele comum, não tanto pelo que exprima, mas pelas premissas que lhe antecedem a decretação. No caso especifico desse dogma temos então “uma verdade religiosa revelada sobrenaturalmente por Deus e, como tal, proposta a crer pela Igreja” (“Teologia Dogmática”, de Bernardo Bartmann, pág. 15 da 1ª edição brasileira).

E enquanto o clero cuidasse apenas de propor realmente dogmas cristãos, extraídos do Evangelho, não seria tanto de se condenar sua atitude, senão apenasmente na parte em que margeia a Razão e interpreta a BoaNova a porta fechadas, a pretexto dum carismo que se arrogou arbitrariamente ou da pretensa assistência privilegiada do Espírito Santo.

Por isso, com esse nome a Igreja passou a propor (antes, impor) uma série de tolices e absurdos, subproduto de concílios solenes e abusivos decretos papais. Vejamos um pouco mais o que o erudito Bernardo Bartmann ensina na sua “Teologia Dogmática”, à página 16 da edição citada:

“Visto que o dogma, tomado em sentido estrito exige a Revelação sobrenatural, segue-se daí que as verdades que a Igreja ensina, não hauridas porém naquela fonte, são dogmas impropriamente ditos.” Note-se que é um respeitável membro do clero que, honestamente, faz a afirmativa, contrariando, de certa forma, o normal comportamento da cúpula eclesiástica. Difícil se torna, contudo, convencê-la, a ela, a Igreja, de quanto se afasta, deliberada ou inocentemente, das fontes da Revelação na maioria, na grande maioria dos seus dogmas.

Confirmemos, de nossa parte, a imprescindibilidade de que o dogma, para ser autêntico, tenha de estar contido na Revelação. Nada há de repugnante, por exemplo, no dogma da existência de Deus. Os espíritas não podem rejeitar essa afirmativa e têm todos, igualmente, convicção dessa Verdade. Os que a não têm deixam automaticamente de ser espíritas, embora sua posição de forma alguma lhe obste a entrada no reino dos céus.

Há dois aspectos, entretanto, que já nesta altura não podem deixar de ser devidamente esclarecidos. O primeiro diz respeito à extensão da Revelação, em face da qual espíritas e católicos discordam. Enquanto estes consideram-na, estranhamente, encerrada com a morte de João Evangelista, o último dos apóstolos, aqueles, considerando as promessas do próprio Cristo, aceitam a sua complementação progressiva. Por isso, às vezes, nós, os espíritas, vamos buscar outros pontos de convicção naquela que é a Terceira Revelação e que, de resto, não contrariou sequer a primeira ou a segunda, mas apenas esclareceu-as melhor.

Lembramos aqui que foi a falsa convicção do farisaísmo nos seus dogmas que encegueceu os seus adeptos e impediu-os de raciocinar sobre as novas e progressivas verdades que Jesus trouxe ao mundo.

No mais, essa história de afirmar (aliás, gratuitamente) que a Revelação se encerrou com o Novo Testamento deixa muito mal o Criador que, nessa hipótese, teria esquecido completamente todos os povos anteriores ao Cristo, permitindo que somente os que nasceram de sua época em diante (desde que se neguem as existências passadas e que o Espírito nasce uma só vez na Terra) viessem a ser premiados com o conhecimento de verdades maiores ou, antes, das verdades definitivas sobre tudo e sobre todos.

A progressividade espírita da Revelação não conspurca assim o Criador, apresentando-O como um Ser realmente Sábio e Perfeito que vai permitindo às Suas criaturas aprender e evoluir, em todas as épocas, à medida que as Verdades Eternas lhes vão sendo reveladas.

Mas, mesmo que se quisesse — apenas para argumentar — raciocinar em torno tão-somente da Revelação Cristã, como a última trazida ao mundo, ainda assim os pontos de vista espíritas afloram muito mais natural e fluentemente do que aqueles que precisam de concílios para ser compreendidos e proclamados. E’ o caso da reencarnação.

O segundo aspecto que prometemos referir, além da extensão da Revelação, é o da aplicação da Razão à própria Revelação. E’ assim que, conforme já frisamos seguidamente, somos racionalistas, enquanto a Igreja faz aditar à Revelação a chamada Tradição (símbolos da fé, concílios, escritos dos padres, etc,) a fim de proclamar os seus dogmas.

Daí a cautela da Santa Madre: “Há limites que a especulação não pode transpor sem perigo para o dogma” (“Teologia Dogmática”, página 113). A Igreja, como já vimos, não admite a aplicação da Razão aos dogmas que ela propõe, esquecida de que, nos concílios, é o puro racionalismo que em última análise orienta os debates e faz gerar as soluções decretadas. E se assim não fora teríamos o caos das idéias no seu mais amplo sentido.

O Espiritismo alia a Razão pura à Revelação, objetivando a proposição dos seus postulados. E como também reconhece alguns limites à especulação, faz assentar o seu exame das Verdades nos fatos que ela encerra, quer direta, quer indiretamente.

É aqui que o Espiritismo se engrandece e torna suas convicções mais sensatas, mais sábias, mais lógicas e menos confutáveis.

Deus existe, dogmatiza a Igreja, porque assim consta da Revelação, porque assim expressa a Tradição e porque assim o magistério “infalível” da Igreja o proclamou.

Deus existe — afirma o Espiritismo — porque assim consta da Revelação, porque assim compreende a nossa Razão e porque assim os fatos o comprovam. “O Espiritismo — sentencia Kardec — não estabelece como princípio absoluto senão o que se acho evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação” (“A Gênese”, pág. 42 da 13ª edição da FEB) – “Que autoridade tem a revelação espírita — diz ainda o Mestre — uma vez que emana de seres de limitadas luzes e não infalíveis? A objeção seria ponderosa, se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, as deles exclusivamente a devêssemos receber e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados.

Perde, porém, todo valor, desde que o homem concorre para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério, desde que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos” (“A Gênese”, págs. 44/45, da edição citada).

Quanto à Tradição, é óbvio que o Espiritismo também lhe empresta algum respeito, se considerada no sentido restrito do conjunto das verdades reveladas que os apóstolos pregaram sem as deixar escritas. Repele-a, entretanto, no sentido odioso que lhe empresta a Igreja, quando afirma: “Ao magistério infalível da Igreja cabe discernir, em última instância, quais tradições são de origem divina, quais de origem humana” (“Os Dogmas da Fé”, de João Pedro Junglas, pág. 51 da 3ª edição de “Vozes”) - Ou: “O critério pelo qual se reconhece a bíblia verdadeira, é a tradição apostólica que a Igreja sanciona pelo magistério infalível” (idem, ibidem pág. 51).

Como vemos, há um “magistério infalível” (?!) que julga em última instância o valor da Tradição. Porque a sanção é só e exclusivamente da Igreja? Além do mais, à guisa de apor essa sanção, o clero passou, de repente, não apenas a sancionar os dogmas do Evangelho, mas a fazer também Revelação, autoridade para a qual, nem com muito boa vontade, conseguimos lobrigar na mensagem do Cristo.

É certo que Jesus falou na descida do Espírito Santo, mas apenas para dizer que ele desceu sobre o colégio apostólico a fim de dar força e sabedoria aos pregadores da Boa-Nova e não para que fizesse qualquer Revelação.

E, de fato, a própria Igreja não se considera com essa autoridade, pois “não compôs nenhum livro sagrado, porque não é, inspirada, mas sim interpreta os livros sagrados porque é assistida pelo “Espírito Santo”, como afirma Caussette. Não é mentira que São Bernardo escreveu uma vez que a Igreja, como Esposa do Cristo, tem o Espírito Santo e pode infundir um sentido novo no escrito. Contudo, reconheçamos que, de direito, a Igreja jamais se arrogou esta autoridade e a opinião de São Bernardo permanece uma voz isolada.

Seu procedimento, entretanto, é paradoxalmente outro, pois mais não tem feito, na prática, do que agir conforme diz que não deve agir. Se reconhece que não tem a autoridade para fazer revelação, como pois nos vem inspirar dogmas como o da Santíssima Trindade, da infalibilidade Papal, da Ascensão db Nossa Senhora, do Purgatório, do Pecado Original, etc.? Não foi sem razão que Lutero acusou a Igreja de arrogar-se o poder absolutista sobre a Escritura: “Vangloriam-se de que o Papa e a sua Igreja estão acima da Sagrada Escritura. O Papa teria o poder de mudá-la, suprimi-la, proibi-la, interpretá-la a seu bel-prazer.”

O Espiritismo está pronto a aceitar todas as verdades contidas no Evangelho e, mesmo assim, depois de examinadas racionalmente. Perguntar-se-á, porém: mas, em que termos a Razão de que tanto falamos deverá ser aplicada?

Qual o critério para esse exame? Que, espécie de Razão deverá servil de fiel de balança: a dos Espíritos ou a dos Concílios? Adolfo Bezerra de Menezes, o apóstolo do Espiritismo no Brasil, ensina-nos na sua obra “A Doutrina Espírita como Filosofia Teogônica” (reeditada com o título de “Uma Carta de Bezerra de Menezes”): “Temos um critério infalível para o conhecimento da pura verdade. Temos esse critério nas perfeições infinitas do Criador.

Tudo que as exaltar é pura verdade. Tudo que as rebaixar épura mentira. E, por esse critério, podemos verificar quais os princípios de nossa religião que são verdades, quais os que são mentiras” (págs. 61/62 da 1ª edição da FEB).

O grande equívoco da Igreja não está em apontar dogmas, mas em apontar determinados dogmas que não constam da Revelação ou que são produtos de interpretações distorcidas, distanciadas da grandeza de Deus e capazes de rebaixá-Lo.

É o caso do Inferno, com a crença em Satanás, um ser e uma imagem que, apresentados tão poderosos quanto o próprio Deus, conseguem até desafiá-Lo, diminuindo-O e desmerecendo-O portanto (aqui temos uma falsa interpretação evangélica). Ou, então, no caso da vida única, que minimiza o Criador, apresentando-O injusto com os que não quis gerar perfeitos física, intelectual e moralmente (aqui temos uma afirmativa que não existe na Revelação).

A própria Igreja chama “veritates catholicae” (verdades católicas) àquelas que não estão contidas na Revelação e que, portanto, não podem ser consideradas dogmas. As verdades católicas constituem apenas as “doctrinae ecclesiasticae” (doutrinas eclesiásticas), para distinguir das “doutrinas divinas” da Revelação.

Contudo, a questão se revela facciosa por completo, quando verificamos que, apesar dessa doutrina, a Igreja apresenta como dogma exatamente o que se não acha nas Escrituras, contrariando portanto os seus próprios preceitos que, por isso mesmo, não passam de temas de fancaria.

É o caso flagrante da infalibilidade papal. No mais, a Igreja cuida de defender sua posição de todos os modos, pois mesmo em relação às “verdades católicas” não esqueceu de garanti-las com a característica da infalibilidade. “Os concílios gozaram sempre o prestigio de uma autoridade infalível” — afirma Bernardo Bartmann à pág. 65 da sua “Teologia Dogmática”. Em última análise temos, destarte, a troca dos nomes apenas; os bois são sempre os mesmos.

Segundo o Espiritismo, todos são aptos à interpretação evangélica, desde que os resultados alcançados suportem a crítica da Razão, não repilam o bom-senso universal nem contrariem a verdade experimental dos fatos. E — frisemos bastante — a crítica da Razão (isto é, pela Razão) deve necessariamente engrandecer e exalçar Deus e nunca rebaixá-Lo!

Há ainda um outro ângulo a ser considerado na questão: o texto original da Revelação. O Concílio de Trento estabeleceu “que esta velha e divulgada versão (“vetus et vulgata editio”), provada pelo uso de tantos séculos na Igreja, nas leituras públicas, disputas, pregações, seja considerada como autêntica (“pro authentica habeatur”), e ninguém ouse ou presuma rejeitá-la a qualquer pretexto” (“Enchiridion Symbolorum et Definitionum”, página 785). A respeito, comenta Bartmann no seu trabalho teológico: “O elemento essencial da decisão conciliar deve-se procurar no sentido da palavra “autêntica”.

Em si, não significa conformidade com o texto original da Bíblia, mas reconhecimento da parte da Igreja” (pág. 47, edição citada). Como vemos, a Igreja, além do mais, fechou definitivamente a questão em torno até mesmo do texto bíblico, em relação ao qual não admite nada que se lhe prove contrariamente ao que, da sua parte, já reconheceu como autêntico. Isto já é, queiram ou não queiram, colocar-se realmente acima da própria Revelação!

Dissequemos o problema do dogma com mais profundidade ainda. A teologia dogmática, que já analisamos em parágrafos anteriores, cumpre três deveres distintos: a) apresentar o dogma como é atualmente no ensino da Igreja, extraindo-o das chamadas fontes simbólicas; b) prová-lo com a Escritura e a Tradição; e) aprofundá-lo especulativamente, quanto possível.

Não é difícil verificar que o processo de apresentar, provar e aprofundar é sempre de natureza racional, a despeito da repulsa da Igreja ao sistema racionalista. Mas vamos adiante. Na apresentação do dogma, é recomendada a atenção aos seus próprios escritos.

Na prova são aconselhadas “as normas científicas usadas hoje pela exegese e tantas vezes recomendadas pela Igreja” (“Introduzione allo Studio dei Dogma”, de Glorieux, edição Paulina de 1951). No aprofundamento é recomendada a fé como ponto de partida, além dum ângulo ou crivo filosófico que não seja outro senão o do aristotelismo escolástico, indicado nas encíclicas “Aeterni Patris”, de Leão XIII, de 1879, e “Humani Generis”, de Pio XII, de 1950.

Repare-se que, na hora de “apresentar” o dogma, a grande fonte é sempre o ensino da própria Igreja e os chamados escritos simbólicos, também dessa mesma Igreja. Para isso ela impõe o uso duma linguagem teológica fixa, “pois se cada teólogo quisesse criar um vocabulário próprio, resultaria uma tremenda confusão” (“Enchiridion Symboiorum et Defínitionum”, págs. 159, 161, 442 e seguintes).

Impõe ainda que se evite “a novidade profana de palavras” e, citando Santo Agostinho, obriga o uso “duma regra determinada para que o uso arbitrário dos termos não venha a criar uma opinião errônea sobre o que designam”.

A isto chamam “apresentar o dogma na sua verdadeira realidade”. Como vemos desde logo, é praticamente dogmatizar antes mesmo de apresentar o próprio dogma. Repare-se em seguida que, na hora de “provar” o dogma, só tem valor a exegese católica, o que evidencia uma condição “a priori”, profundamente repugnante.

A prova que não trilhe a norma da ciência católica, não serve nunca. Finalmente, repare-se que a especulação só se permite através duma determinada escola filosófica, qual seja, a do aristotelismo escolástico, o que seria o mesmo se nós, espíritas, propuséssemos: aceitaremos a doutrina católica, desde que nos convençam dos seus postulados através unicamente da escola filosófica dos materialistas ...

Um beco sem saída. Além disso tudo, quando a fé é imposta como princípio diretivo da especulação, poder-se-ia certamente indagar: que fé? A fé cega, sem dúvida, tão sem valor e sem convicção interior. No mais, como seria possível a fé (apesar de cega) numa verdade que ainda vai ser proclamada pela teologia dogmática, depois daquelas três exigências? Afinal, é a Verdade que gera a fé ou a fé que gera a Verdade? Parece que estamos, agora, dentro dum círculo vicioso.

O processo espírita é muito diferente. E, antes de examiná-lo, leiamos rapidamente esse conceito de Léon Denis, contido em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, à pág. 30 da 8ª edição da FEB:

“Hoje, já não basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepção filosófica tem probabilidade de triunfar, se não tiver por base uma demonstração que seja, ao mesmo tempo, lógica, matemática e positiva, e se, além disso, não a coroar uma sanção que satisfaça a todos os nossos instintos de justiça.”

Um pouco antes, à pág. 28, lemos: “O novo espiritualismo dirige-se, pois, conjuntamente, aos sentidos e à inteligência. Experimental, quando estuda os fenômenos que lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamentos que deles derivam, e constitui um instrumento poderoso para a indagação da verdade, pois que pode servir simultaneamente em todos os domínios do conhecimento “ Em nota elucidativa ao pé da pág. 32, afirma: “Os fatos não têm valor sem a razão que os analisa e deles deduz a lei.” “Por conseguinte, o método que se impõe é: 1º) a observação dos fatos; 2º) a sua generalização e a investigação da lei; 3º)a indução racional que, além dos fenômenos fugitivos e mutáveis, percebe a causa permanente que a produz,” Assim — podemos agora repetir com ênfase — o método espírita tem a seu favor, no enunciado da Verdade, esse caminho novo e todo especial, embora muito simplista: a Razão e os Fatos experimentais, de­pois, obviamente, da Revelação.

Nesse sentido é que o Espiritismo também tem seus dogmas, como aliás bem acentuou o nosso brilhante e estudioso confrade Carlos Imbassahy, no seu excelente trabalho intitulado “Religião”, quando diz, à pág. 156 da edição de 1952, da FEB: “Nem ao dogma, talvez, se fugisse, visto que, para o espiritista, a existência de Deus é ponto fundamental e indiscutível”.

A esse método aliemos ainda o criticismo kantiano no seu aspecto mais extraordinário, do ponto de vista do conhecimento, qual seja o da impossibilidade de se conhecer toda a verdade através da razão. Isto pode parecer paradoxal, mas não o é.

Vamos mais uma vez tentar explicar porquê. Lembremo-nos de que Kant admitiu, como necessário, não apenas Deus, mas também a existência e imortalidade do Espírito, embora não nos fosse possível apreender a essência dessas duas grandes verdades. Ora, não é isto exatamente o que nos ensina o Espiritismo ? Não é isto que consta, como já vimos, de “O Livro dos Espíritos”?

O próprio Kant acabaria sendo considerado paradoxal, se não fosse levada em conta, com bastante inteligência, a sua filosofia. Entre a “Crítica da Razão Pura” e a “Critica da Razão Prática” há um abismo para o estudioso desprevenido.

No primeiro, Kant destrói a metafísica científica “para em seu lugar elevar-se a metafísica da fé. Do cristianismo da razão pura, passa Kant ao dogmatismo moral” (“Noções da História da Filosofia”, do padre Leonel Franca, pág. 178 da 12ª edição da AGIR).

Após a publicação da “Crítica da Razão Pura”, Reinhold disse que a obra foi proclamada pelos dogmatistas como a tentativa dum céptico para abalar e certeza de todo o conhecimento; pelos cépticos, como um trabalho arrogante, presunçoso, visando a erigir nova forma de dogmatismo sobre as ruínas dos sistemas anteriores; pelos supernaturalistas, como um artifício habilmente maquinado para afastar os fundamentos históricos da Religião e estabelecer sem controvérsias o naturalismo; pelos naturalistas como um novo alento à agonizante filosofia da fé; pelos materialistas, como uma confrontação idealista da realidade da matéria; pelos espiritualistas, come uma injustificável confinação da realidade do mundo corpóreo, escondido com o título de domínio de experiência.

Ora, se o kantismo é capaz de ser ao mesmo tempo criticista e dogmático, porque não o pode também o Espiritismo? Considere-se ainda que este além do mais, joga com fatores absolutamente estranhos ao kantismo e que facilita sobremodo e compreensão do aparente paradoxo.

A Doutrina dos Espíritos envolve dois campos do conhecimento: o dos encarnados e o dos desencarnados, provando experimentalmente essa dupla posição da existência e do pensamento das criaturas. Isto facilita muitos problemas. O Espírito desencarnado pode conhecer, muitas vezes, algumas verdades a mais que na condição de encarnado, lhe estariam veladas à sua razão relativa. Aqui ele se sujeita ao criticismo, e do lado oposto da vida, falando-se em tese ele não está mais tão fortemente sujeito a esta condição. Admitido o intercâmbio entre os dois mundos, teremos então atingidas algumas verdades antes incognoscíveis na sua essência.

Voltemos agora ao raciocínio inicial. Por tudo isso, nada há de estranho na afirmativa de Kardec de que o Espiritismo tem alguns dogmas. Trata-se entretanto, de alguns poucos pontos fundamentais da Doutrina, contido. na Revelação Cristã, na Revelação kardecista e em outras, dignas de respeito como é o caso da “Revelação da Revelação”, de Roustaing.

A Razão e a Lógica os sancionam. Os Fatos os comprovam. A universalidade dos estudiosos os atestam. Não há, pois, porque temer a palavra, se encaramo-la do ponto de vista que de fato encerra a sua etimologia: pensamento: convicção doutrina. Nenhum espírita pode negar a Deus. Nenhum espírita pode negar a comunicação entre vivos e mortos. Nenhum espírita pode negar a imortalidade da alma.

São dogmas, porém, concluídos diferentemente da Igreja Católica, por tudo o que vimos expondo até aqui. Não são decretados por uma autoridade humana, por um concilio ou por uma reunião do bispado. Nem tão-pouco são votados por um grupo qualquer que, em assembléia fechada, decide pretensiosamente o que é ou não é verdade. O que se deve temer não é propriamente o termo dogma, mas, antes, o termo dogmática. “A Teologia Dogmática é a fonte por onde se passa do regime de liberdade para o de escravidão” disse com muita propriedade o Padre Alta no seu livro “O Cristianismo do Cristo e dos seus Vigários”, à pág. 814 da edição de 1951 da FEB. Através da dogmática é que surgem até hoje os dogmas mais absurdos da Igreja Católica. Com seu critério dogmático a Santa Madre impõe o Juízo Final, o Inferno, a Santíssima Trindade, a infalibilidade do Papa, e uma série imensa de outras ilogicidades.

Através da dogmática a Igreja manietou a Razão, violentou as consciências e inventou um rosário de dogmas “católicos”. Com eles conspurcou o verdadeiro Cristianismo, enceguecendo-se ante as novas verdades que o Consolador Prometido trouxe à Humanidade e viciando-se na mentira e na simonia. Buscando aflita uma saída para sua incrível e insustentável posição filosófica, agarrou-se a uma moderna “interpretação progressiva” do dogma, preparando o caminho para uma fuga estratégica futura, mas, de qualquer forma, envencilhada num inextricável emaranhado que a esgotará paulatinamente e pouco a pouco lhe exaurirá até as últimas forças.

Este trabalho não deveria terminar aqui. Deveríamos aprofundar alguns dos muitos pontos necessariamente passíveis de maiores esclarecimentos; entretanto, essa tarefa não a comportam as páginas limitadas do “Reformador”. Apenas para rematar, reafirmemos esta breve sinopse de toda e matéria abordada:

1 — O Espiritismo se enquadra no dogmatismo filosófico moderado, por entender que a criatura, em determinadas circunstâncias, pode alcançar a Verdade absoluta. (Leia-se, a propósito, nosso artigo intitulado “Ao Encontro de Deus”, publicado em “Re­formador” de Novembro de 1962.)

2 — O Espiritismo repele a teologia dogmática dos católicos por lhe negar os critérios de verdade que adota e o sistema aplicado na proclamação dos seus dogmas.

3 — O Espiritismo possui alguns poucos dogmas extraídos das Revelações Divinas, aceito porém pela Razão, quando esta não minimiza Deus nos Seus juízos e quando são confirmados experimentalmente pelos Fatos.

4 — O Espiritismo admite o criticismo transcendental kantiano, por conceber que há verdades impossíveis de, no estado atual dos encarnados (e às vezes, também dos desencarnados), serem assimiladas tais quais são, pela Razão limitada e relativa das criaturas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Verdade, mais uma vez.





Podemos observar que o espiritismo se caracteriza, quanto a sua natureza, “por ser divina a sua origem e da iniciativa dos espíritos e fruto do trabalho do homem ”(A Gênese cap. 13 in fini), mas tem seu caráter é o da eterna verdade.

Sim, é fácil compreender que o Espiritismo é exercido pela vontade, pelo livre-arbítrio, dando a cada qual a liberdade de escolha do caminho para chegar ao entendimento maior e conseqüentemente à evolução.

Para que alcancemos o objetivo evolutivo, precisamos direcionar nossas energias para os canais superiores. Assim, desenvolvendo um ideal superior, determinamos metas para direcionar nossas energias criativas.

Se a Doutrina Espírita é uma revelação divina que foi frutificada pelo trabalho do homem, mas de iniciativa dos Espíritos Superiores, todos temos a energia de Deus, fonte da criação, para, também nós, sermos condutores desta arte da criação. Assim, o ser se utiliza desta energia criativa para satisfazer suas necessidades básicas e, na seqüência, conduzir a educação do Espírito para o desenvolvimento da inteligência. Aquele que reconhece um motivo justo, forte e verdadeiro para fazer o que faz, encontra forças para suportar o peso de sofrimentos e dificuldades para a superação de si mesmo e dos obstáculos externos.

O que nos parece certo e que será nosso condutor sem barreiras ao progresso é que se preservarmos o caráter essencial da revelação divina, portanto do Espiritismo, é termos consciência de que precisamos tudo fazer para trilhar a verdade.

Mas como podemos saber o que é verdade?

Conduzir-se com verdade é conduzir-se o mais próximo e exato possível da realidade. É ter sinceridade e boa fé em todas as ações e pensamentos. É procurar ser autêntico, fiel, legítimo e legal. Parecer o que realmente é.

A verdade é como a boa semente que se prolifera em idéias de progresso e desenvolvimento.

Normalmente nos iludimos e somos impedidos de ver a verdade realmente como ela é. Enganamo-nos sobre a realidade das coisas. Deixamos que preconceitos e convicções arraigadas e profundas, fale mais alto. Deixamos de lado o “verdadeiro ver” e nos arrastamos em idéias que não se sabe onde são fundamentadas, embora já antigas e passadas entre gerações.

Nossas emoções, na maior parte das vezes, são o espelho do certo ou errado, do agir no bem ou no mal. Se não admitimos a verdade em nós de maneira honesta, como será que poderemos chegar à verdade divina e ao princípio essencial do Espiritismo? É preciso sentir a verdade, saber o que sentimos e adequá-la à vida.

Jesus disse: “Vim ao mundo dar testemunho da Verdade”e ainda: “Eu sou a verdade”. Isto se fez necessário porque a humanidade inteira, o homem em si, só acredita naquilo que vê. E se fez necessário que Jesus viesse nos dar sua vida para que acreditássemos em sua Verdade.

E a verdade se faz humana quando acreditamos no que vivenciamos ou experimentamos e, desta forma, vamos acreditando em verdades relativas, conceitos relativos. Costuma-se evitar as verdades, rejeitá-la ou mesmo fugir dela.

Maneira errada de ver as coisas. Caminho difícil de sentir a moral cristã.

Faz-se necessário nos sintonizarmos à percepção intuitiva, aos olhos do espírito, àquele que realmente vê, para que possamos ter a certeza da percepção, compreensão e efetivação da verdade em nossas vidas.

Por mais que desejemos ter a verdade a nosso favor, e enquanto apenas desejamos em lugar de sermos dela senhores e detentores, estamos deixando muito por fazer, estamos cultivando uma vontade e não uma verdade. Vontade tênue, ainda desprovida de reais sentimentos cristãos. Neste misto de verdade e mentira ou até de verdade e ignorância, sabemos muito pouco da grande verdade da vida e do Universo.

E o Espiritismo veio consolidar a verdade. Ratificar Cristo.

Precisamos escutar novamente as palavras de Jesus através do Espírito de Verdade. Atentemos às palavras contidas no Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 6, item 5. Reflitamos sobre a verdade de Deus, a verdade absoluta a que nos devemos curvar.

Disse o Espírito de Verdade:

“ Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer-vos a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal.

Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso no seio da Humanidade e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis."

Mas, ingratos, os homens afastaram-se do caminho reto e largo que conduz ao reino

de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não vivem na Terra, a clamar: Orai e crede! pois que a morte é a ressurreição, sendo a vida a prova buscada e durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

Homens fracos, que compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.

Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza

imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades.

Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos clamam: "Irmãos! Nada perece. Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade." - O Espírito de Verdade. (Paris, 1860.) (grifo nosso)

Encaremos a verdade de frente, por mais feia que seja.

Não utilizemos artifícios para encobrir a verdade. Usemos de doçura, de modos amáveis e simples, mas não nos permitamos fugir da verdade. Como disse o Espírito de Verdade: “No cristianismo encontram-se todas as verdades.”

Jesus veio ensinar a verdade e o Espiritismo veio ratificá-la.

O Espiritismo não inventou ou descobriu a Verdade. Não é resultado de iniciativa dos homens. É consolo e esclarecimento. É, portanto uma revelação e tem seu caráter na eterna Verdade que nos dá a conhecer o mundo invisível, esclarecendo os homens acerca de coisas por eles ignoradas, já que hoje estão aptos a compreender.

Meira Bestene

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ideoplastia





O vocábulo “ideoplastia” foi criado pelo Dr. Durand de Gros, em 1860, para designar os principais caracteres da sugestibilidade.

Mais tarde, em 1864, o Dr. Ochorowicz o empregou para designar os efeitos da sugestão e da auto sugestão, quando ela faculta a realização fisiológica de uma idéia, como se dá nos casos da estigmatização.

Finalmente, o professor Richet o propôs, quando das duas experiências com as senhoritas Linda Gazera e Eva C. . . (1912, 1914), cujas experiências demonstraram, de feição nítida e incontestável, a realidade da materialização de semblantes humanos, que eram, por sua vez, reproduções objetivadas e plásticas de retratos e desenhos vistos pelos médiuns.

Claro é que, desses fatos, dever-se-ia logicamente inferir que a matéria viva exteriorizada é plasmada pela idéia.

E aí está a exata significação do termo “Ideoplastia” aplicado aos fenômenos de materialização mediúnica.

O Espiritismo não inventou nada. Todos os seus ensinos, repousam nos conhecimentos que adquiriu na comunicação com os Espíritos, e é para seus adeptos inigualável alegria ver como cada ponto da doutrina se confirma, à medida que se vai estendendo o inquérito, começado há meio século. Cada passo à frente, dado pela investigação independente, conduz fatalmente para nós. Outrora, era a negação total, obstinada, absoluta das manifestações espíritas, sob todas as suas formas, desde os simples movimentos de mesa e escrita automática até os transportes e as materializações. Em nossos dias, só os tardígrados, os ignorantes, é que contestam, ainda, a realidade dos fatos.

Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como, despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e a vontade próprios, temos que o futuro é franco a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em Seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

O Espiritismo, tendo por objetivo o estudo de um dos elementos constitutivos do Universo, toca forçosamente na maior parte das ciências; só podia, portanto, vir depois da elaboração delas; nasceu pela força mesma das coisas, pela impossibilidade de tudo se explicar com o auxílio apenas das leis da matéria.a

Com a reencarnação desaparecem os preconceitos das raças e de castas pois o mesmo espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escrava, homem ou mulher.

O amor, profundo como o mar, infinito como o céu, abraça todas as escrituras. Deus é o seu foco. Assim como o Sol se projeta, sem exclusões, sobre todas as coisas e reaquece a natureza inteira, assim também o amor divino vivifica todas as almas; seus raios, penetrando através das trevas do nosso egoísmo, vão iluminar com trêmulos clarões os recônditos de cada coração humano. Todos os seres se criaram para amar. As partículas da sua moral, os germes do bem que em si repousaram, fecundados pelo foco supremo se expandirão algum dia, florescerão até que todos sejam reunidos numa única comunhão do amor, numa só fraternidade universal.

Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode fazer que entre os homens reinam a concórdia, a paz, a fraternidade.Será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos, que fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonistas de seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos que tem por dever auxiliarem-se mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos outros.

Sei bem que o progresso só se faz por degraus, que é necessário tempo para que a opinião pública se acostume às novidades; assim, é sem impaciência que espero a vinda de novos médiuns, com os quais se poderão continuar esses notáveis descobrimentos. Desde que os fenômenos são reais e que se verificam já um tanto por toda a parte, é certo que se reproduzirão, e então triunfaremos porque a verdade acaba sempre por impor-se.

Ninguém nasce destinado ao mal, porque semelhante disposição derrogaria os fundamentos do Bem Eterno sobre os quais se levanta a Obra de Deus.

O espírito renascente no berço terrestre traz consigo a provação expiatória a que deve ser conduzido ou a tarefa redentora que ele próprio escolheu, de conformidade com os débitos contraídos.

A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.

Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, se-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

Os reflexos mentais, segundo a sua natureza, favorecem-nos a estagnação ou nos impulsionam a jornada para a frente, porque cada criatura humana vive no céu ou no inferno que edificou para si mesma, nas reentrâncias do coração e da consciência, independentemente do corpo físico, porque, observando a vida em sua essência de eternidade gloriosa, a morte vale apenas como transição entre dois tipos da mesma experiência, no “hoje imperecível”.

Quão raros na Terra se capacitam de que trazemos conosco os sinais de nossos pensamentos, de nossas atividades e de nossas obras, e o túmulo nada mais faz que o banho revelador das imagens que escondemos do mundo, sob as vestes da carne!. . .

O espiritismo fornece a chave das relações existentes entre a alma e o corpo, e prova que há reação incessante de um sobre ou outro; desta forma, abre para a ciência uma estrada nova; apontando a verdadeira causa de certas afecções, fornece-lhe os meios de combate-las. Quando levar em conta a ação do elemento espiritual na economia, a ciência errará menos.

Os espíritos exercem incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram explicação senão no Espiritismo.

A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por alheios erros, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.

Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Basta que se esteja em relações com outros homens para que se tenha ocasião de fazer o bem, e não há dia da existência que não ofereça, a quem não se ache cego pelo egoísmo, oportunidade de praticá-lo. Porque, fazer o bem não consiste, para o homem, apenas em ser caridoso, mas em ser útil, na medida do possível, todas as vezes que o seu concurso venha a ser necessário.

O túmulo é o ponto de reunião de todos os homens. Aí terminam inelutavelmente todas as distinções humanas. Em vão tenta o rico perpetuar a sua memória, mandando erigir faustosos monumentos. O tempo os destruirá, como lhe consumirá o corpo. Assim o quer a Natureza. Menos perecível do que o seu túmulo será a lembrança de suas ações boas e más. A pompa dos funerais não o limpará das suas torpezas, nem o fará subir um degrau que seja na hierarquia espiritual.

Uma vez que o perispírito organiza a matéria, e como esta ressuscita das formas desaparecidas, parece lógico concluir que ele conserva traços desse pretérito, porque a hereditariedade, como veremos, é impotente para fazer-nos compreender o que se passa; parece legítimo supor, portanto, que o próprio perispírito evolveu através de estádios inferiores, antes de chegar ao ponto mais elevado da evolução.

Se a reencarnação é uma verdade, bastante lógico é que as lembranças referentes a uma vida anterior se revelem, como já o disse muitas vezes, mais freqüentemente entre as crianças, visto que o perispírito, antes da puberdade, possui ainda um movimento vibratório que, em certas circunstâncias especiais, pode adquirir bastante intensidade, para fazer renascer recordações da existência anterior.

Melhor ainda: as crianças prodígio provam-nos, com evidência irresistível, que a inteligência é independente do organismo que a serve, e isto porque as mais altas formas da atividade intelectual se mostram entre aqueles cuja idade não atingiu a maturidade plena. É esta uma das melhores objeções que se podem opor à teoria materialista.

Porque o perispírito é indestrutível, conservamos, depois da morte, a integralidade de todas as nossas aquisições terrestres, e a memória acorda, então, completa, nos seres suficientemente evolvidos, por maneira que podemos abraçar o panorama de nossa passada existência.

Vê-se, indiscutivelmente, das pesquisas feitas a meio século, pelos sábios mais notáveis do mundo inteiro, que existe no homem um princípio transcendental, desconhecido dos quadros da fisiologia oficial, porque nos é revelado com faculdades que o tornam muitas vezes independente das condições de espaço e de tempo, que regem o mundo material.

Tudo evoluciona, tanto as nações como os indivíduos, assim os mundos como as nebulosas. Tudo parte do simples para chegar ao composto; da homogeneidade primitiva vai-se à prodigiosa complexidade da Natureza atual, realizada por leis que só pedem tempo para produzir todos os seus efeitos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Biografias de Personagens Importantes para o Espiritismo





Emanuel Von Swedenborg

Swedenborg nasceu na Suíca e foi educado pela nobreza de sua pátria, deslocando-se para Londres onde iniciou-se a sua "iluminação", porquanto desde o dia de sua primeira visão até a sua morte, 27 anos após, esteve ele em contínuo contato com o mundo espiritual de maneira ostensiva. Naquela noite, diz ele, o mundo dos espíritos, do céu e do inferno abriu-se convincentemente para mim e aí encontrei, muitas pessoas do meu conhecimento e de todas as condições. Desde então diariamente o Senhor abria os olhos do meu espírito para ver, perfeitamente desperto, o que se passava no outro mundo e para conversar, em plena consciência, com os anjos e espíritos.

Swedenborg, considerado como precursor do Espiritismo, foi antes de tudo um homem de gênio, cuja genialidade empolgada o fez perder-se em algumas interpretações, naquilo que lhe era dito ou mostrado. Aceitava a Bíblia como obra de Deus, com significação diferente de seu óbvio sentido e que ele, só ele, ajudado pelos anjos seria capaz de transmitir aquele verdadeiro sentido. Essa pretensão é intolerável e por causa dela a sua obra tornou-se contraditória e nem sempre inteligível como simples e compreensíveis são os ensinamentos dos missionários quando têm por missão divulgar as leis divinas.

Swedenborg era certamente em sua época, o homem que mais conhecimentos detinha em seu possante cérebro. Era um grande engenheiro de minas e uma autoridade em metalurgia. Foi o engenheiro militiar que mudou a sorte de uma das muitas campanhas de Carlos XII, da Suécia. Era uma grande autoridade em Física e em Astronomia, autor de importantes trabalhos sobre as marés e sobre a determinação das latitudes. Era zoologista e anatomista. Financista e político, antecipou-se às conclusões de Adam Smith. Finalmente, era um profundo estudioso da bíblia, procedimento este que lhe marcou de maneira negativa a obra fenomenal que realizou no campo intelectual.

Em suas visões o médium falava de uma espécie de vapor que exalava dos poros do seu corpo, que sendo aquoso e muito visível caía no solo sobre o tapete. É uma perfeita descrição do ectoplasma utilizado nos efeitos físicos. Em uma dessas visões Swedenborg descreveu um incêndio em Estocolmo, a 300 milhas de distância, com perfeita exatidão. Estava ele em um jantar acompanhado de 16 pessoas que serviram como testemunhas do evento, investigado pelo grande filósofo Kant. A partir de então ele teve o privilégio de examinar várias esferas do outro mundo e, conquanto as suas idéias sobre teologia tivessem marcado as suas descrições, por outro lado a sua imensa cultura lhe permitiu excepcional poder de comparação e de observação.

Eis alguns fatos por ele observados em suas jornadas: verificou que o outro mundo, para onde vamos após a morte, consiste de várias esferas, representando outros tantos graus de luminosidade e de felicidade; cada um de nós ir para aquela a que se adapta à nossa condição espiritual. Somos julgados automaticamente, por uma lei espiritual das similitudes; o resultado é determinado pelo resultado global de nossa vida, de modo que a absolvição ou o arrependimento no leito de morte têm pouco proveito. Nessas esferas verificou que o cenário e as condições deste mundo eram reproduzidas fielmente, do mesmo modo que a estrutura da sociedade. Viu casas onde viviam famílias, templos onde praticavam culto, auditórios onde se reuniam para fins sociais, palácios onde deviam morar os chefes.

A morte era suave, dada a presença de seres celestiais que ajudavam os recém-chegados na sua nova existência. Esses recém-vindos passavam imediatamente por um período de absoluto repouso. Reconquistavam a consciência em poucos dias, segundo a nossa contagem. Havia anjos e demônios, mas não eram de ordem diversa da nossa: eram seres humanos, que tinham vivido na terra e que ou eram almas retardatárias, como demônios, ou altamente desenvolvidas, como anjos.

De modo algum mudamos com a morte. O homem nada perde pela morte: sob todos os pontos de vista é ainda um homem, conquanto mais perfeito do que quando na matéria. Leva consigo não só as suas forças, mas os seus hábitos mentais adquiridos, as suas preocupações, os seus preconceitos. Todas as crianças eram recebidas igualmente, fossem ou não batizadas. Cresciam no outro mundo; jovens lhes serviam de mães, até que chegassem as mães verdadeiras.

Não havia penas eternas. Os que se achavam nos infernos podiam trabalhar para a sua saída, desde que sentissem vontade. Os que se achavam no céu não tinham lugar permanente: trabalhavam por uma posição mais elevada.

Havia casamento sob a forma de união espiritual no mundo próximo, onde um homem e uma mulher constituíam uma unidade completa. É de notar-se que Swedenborg jamais se casou.

Não havia detalhes insignificantes para a sua observação no mundo espeitual. Fala de arquitetura, do artesanato, das flores, dos frutos, dos bordados, da arte, da música, da literatura, da ciência, das escolas dos museus, das academias, das bibliotecas e dos esportes. Nada lhe fugia a observação, embora que algumas vezes tenha enxertado ao ensinamento recebido as suas convicções pessoais amortecendo o brilho da revelação.

Todavia, Swedenborg foi o primeiro e, sob vários aspectos, um grande médium, sujeitos aos erros e acertos decorrentes da mediunidade quando não devidamewnte educada. Seu trabalho foi de imenso valor, no que tange aos ensinos que seriam confirmados pelo Espiritismo, e pode-se dizer que, pondo-se de lado a sua exegese bíblica, a sua obra foi um marco, um porto seguro, no imenso oceano de superstições e fanatismo em que viviam os homens de sua época.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Um mundo melhor





A todo momento, se ouve dizer que a família se encontra em processo de extinção.
Quanta falsidade nesse conceito!

A família nunca se consolidou tanto quanto nos últimos decênios e não é difícil compreender por quê.

Recorramos à Bíblia...

Geralmente, os que mais se apegam ao Livro Sagrado de cristãos e judeus, radicalizando tudo, são os maiores detratores da família moderna.

Para cada família em desalinho, existem milhares de outras buscando o caminho reto, mas desconsideradas nesse juízo. A lei civil cada vez protege e ampara mais a família.

Famílias em ebulição são exceções, destacadas pelo descalabro que apresentam. As famílias decentes e produtivas quase nunca merecem espaços na mídia, porque é o escândalo que dá ibope.

Consideremos tal qual narra a Bíblia. Vejamos a primeira família: Adão e Eva, Caim e Abel.

Nela, irmão matou irmão. A humanidade, segundo a versão bíblica, era composta por quatro pessoas. Então 25% dela estava podre.

Ainda no Gênesis, observemos Lot e sua família. Deus procurou em Sodoma e Gomorra 40 famílias corretas, apenas 40, para livrar as duas cidades pervertidas de uma chuva de fogo. Deixou por 35, depois por 30, 20 e 10 famílias, e Abraão não as encontrou.

Mas havia Lot, sua esposa e as duas filhas. Eles não eram maus e seriam livrados da catástrofe divina. Na hora da fuga de Sodoma, a mulher de Lot, vencida pela curiosidade, olha para trás e vira estátua de sal. Sobram o pai e as duas donzelas, que vão morar numa gruta. Lá, elas embebedam o genitor, com ele mantêm relação sexual e ficam grávidas. As crianças que nascem são, ao mesmo tempo, filhos e netos de Lot.

Já Abraão, o pai de todos os hebreus, tendo que ir um dia à cidade dos egípcios, convence sua mulher Sarah, que era linda, a tratá-lo como se não fosse sua esposa, mas irmã.

Assim, enquanto ela, com sua beleza, entretém os homens inimigos, o marido proxeneta faz outras coisas.

O rei Davi, autor das decantadas maravilhas dos Salmos, seduz Betsabá, espoça do seu general Urias. Ela fica grávida, ele manda buscar o marido que lutava na guerra, para que a infiel, dormindo com ele, o convencesse de que gerara o filho que já estava no seu ventre. Urias a evita, argumentando que não podia usufruir prazeres enquanto seus camaradas sofriam e morriam nos combates. O soberano, então, o devolve à frente de batalha, levando uma ordem secreta ao comandante geral do exército, no sentido de que envie Urias para a morte, e é prontamente obedecido.

Salomão, o mais sábio dos homens, era casado com a filha do faraó e mantinha um harém com 300 concubinas e 700 princesas.

Que beleza de famílias existiam nos tempos bíblicos, justamente constituídas por aqueles considerados exemplos de virtude!

Eram escândalos tenebrosos, em proporção espantosa, incomparavelmente maior do que na atualidade. Naquele tempo, a população do mundo não passava de algumas dezenas de milhões de pessoas.

Hoje, a população da Terra é de mais de seis bilhões de habitantes.

Até o próprio Jesus teve problemas em família. Seus irmãos - São Mateus cita quatro, nominalmente: Tiago, José, Simão e Judas, e fala em irmãs - não o consideravam. São Marcos relata que seus irmãos tentaram expulsá-lo da Judéia, considerando-o louco.

Família é isso mesmo, pois nela reencarnam espíritos que já se amavam em outras existências, para ampliação do amor na atual reencarnação, e até espíritos inimigos, para a transformação, no aconchego do lar, do ódio de ontem em amor, por ser o lar a maior e mais sublime escola do Universo.

A humanidade já foi, incomparavelmente, pior, aperfeiçoando-se lentamente nos ditames da lei da evolução. A História está aí, confirmando essa grande verdade. É só conferir o passado com o presente e projetar o futuro.

A solidariedade se amplia, o conforto surpreende. A segurança pública, tão criticada nestes dias, é mil e uma vezes mais abrangente e eficiente do que há 50 anos, quando a população também era bem menor.

Os povos se auxiliam nas tragédias coletivas. O jornal, a televisão, o rádio e a revista vigiam os governos, denunciam e cobram dos políticos. As entidades de direitos humanos estão mais ativas do que nunca. As guerras caminham para o desaparecimento, na aldeia global em que a comunicação por satélites transformou todos os continentes.

A ciência, a técnica, a justiça dos homens e as relações internacionais, tudo melhora e numa velocidade alucinante.

Mas a violência, o crime organizado, não se tornou incontrolável? É indagação. Não é bem assim. Recorramos à matemática, também chamada ciência exata.

No Cepaigo, por exemplo, estão cerca de 850 detentos. Na Casa de Prisão Provisória, aguardando julgamento, 820 homens e mulheres. No Estado de Goiás inteiro, 3.500 infelizes roem de arrependimento nas cadeias.

Qual a população de Goiás? Segundo o IBGE, 4,5 milhões de habitantes.

Suponhamos que, no total, os criminosos comprovados no Estado, somados aos ainda em liberdade, sejam 10 mil. Pois 10 mil em 4,5 milhões representam uma parcela ínfima.

Recorrendo à calculadora, representam, apenas, 0,22% da população.

Godinho...

domingo, 17 de junho de 2012

Retrato de Jesus






"Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, Criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, Ó César, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

Tem no meio da fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.

A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu como os raios do Sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

Diz-se que ninguém nunca o viu rir, mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais visto uma mulher tão bela, porém se a majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei em manda-lo o mais depressa possível.

De letras, faz-se admirar de toda cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.

Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele tem praticado, afirmam ter dele recebido grande benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo... Públio Lêntulo, presidente da Judéia.

Líndizione sétima seconda".

(Este documento foi encontrado no arquivo do Duque de Cesadini, em Roma. Essa carta, onde se faz o retrato físico e moral de Jesus, foi mandada de Jerusalém ao Imperador Tibério César, em Roma, ao tempo de Jesus).

Psicometria





Da obra "Mecanismos da Mediunidade"


MECANISMO DA PSICOMETRIA - Expondo algumas anotações em torno da psicometria, considerada nos círculos medianímicos por faculdade de perceber o lado oculto do ambiente e de ler impressões e lembranças, ao contato de objetos e documentos, nos domínios da sensação a distância, não é demais traçar sintéticas observações acerca do pensamento, que varia de criatura para criatura, tanto quanto a expressão fisionômica e as marcas digitais.

Destacaremos, assim, que, em certos indivíduos, a onda mental a expandir-se, quando em regime de «circuito fechado», na atenção profunda, carreia consigo agentes de percepção avançada, com capacidade de transportar os sentidos vulgares para além do corpo físico, no estado natural de vigília.

O fluido nervoso ou força psíquica, a desarticular-se dos centros vitais, incorpora-se aos raios de energia mental exteriorizados, neles configurando o campo de percepção que se deseje plasmar, segundo a dileção da vontade, conferindo ao Espírito novos poderes sensoriais.

Ainda aqui, o fenômeno pode ser apreendido, guardando-se por base de observação as experiências do hipnotismo comum, nas quais o sensitivo muitas vezes pessoa em que a força nervosa está mais fracamente aderida ao carro fisiológico deixa escapar com facilidade essa mesma força, que passa, de pronto, ao impacto espiritual do magnetizador.

O hipnotizado, na profundez da hipnose, pode, então, libertar a sensibilidade e a motricidade, transpondo ao limitações conhecidas no cosmo físico.

Nestas ocorrências, sob a sugestão do magnetizador, o «sujet», com a energia mental de que dispõe, desassocia o fluido nervoso de certas regiões do veículo carnal, passando a registrar sensações fora do corpo denso, em local sugerido pelo hipnotizador, ou impede que a mesma força circule em certo membro - um dos braços por exemplo -, que se faz praticamente insensível enquanto perdure a experiência, até que, ao toque positivo da vontade do magnetizador, ele mesmo reconduza o próprio pensamento revitalizante para o braço inerte, restituindo-lhe a energia psíquica temporariamente subtraída.

PSICOMETRIA E REFLEXO CONDICIONADO - Nas pessoas dotadas de forte sensibilidade, basta o reflexo condicionado, por intermédio da oração ou da centralização de energia mental, para que, por si mesmas, desloquem mecanicamente a força nervosa correspondente a esse ou àquele centro vital do organismo fisiopsicossomático, entrando em relação com outros impérios vibratórios, dos quais extraem o material de suas observações psicométricas.

Aliás, é imperioso ponderar que semelhantes faculdades, plenamente evidenciadas nos portadores de sensibilidade mais extensamente extroversível, esboçam-se, de modo potencial, em todas as criaturas, através das sensações instintivas de simpatia ou antipatia com que se acolhem ou se repelem umas às outras, na permuta incessante de radiações.

Pela reflexão, cada Inteligência pressente, diante de outra, se está sendo defrontada por alguém favorável ou não à direção nobre ou deprimente que escolheu para a própria vida.

FUNÇÃO DO PSICÔMETRA - Clareando o assunto quanto possível, vamos encontrar no médium de psicometria a individualidade que consegue desarticular, de maneira automática, a força nervosa de certos núcleos, como, por exemplo, os da visão e da audição, transferindo-lhes a potencialidade para as próprias oscilações mentais.

Efetuada a transposição, temos a idéia de que o medianeiro possui olhos e ouvidos a distância do envoltório denso, acrescendo, muitas vezes, a circunstância de que tal sensitivo, por autodecisão, não apenas desassocia os agentes psíquicos dos núcleos aludidos, mas também opera o desdobramento do corpo espiritual, em processo rápido, acompanhando o mapa que se lhe traça às ações no espaço e no tempo, com o que obtém, sem maiores embaraços, o montante de impressões e informações para os fins que se tenha em vista.

INTERDEPENDÊNCIA DO MÉDIUM - Como em qualquer atividade coletiva entre os homens, é forçoso convir que médium algum pode agir a sós, no plano complexo da psicometria.

Igualmente, ai, o sensitivo está como peça interdependente no mecanismo da ação.

E como é fartamente compreensível, se os companheiros desencontrados ou encarnados da operação a realizar não guardam entre si os ascendentes da harmonização necessária, claro está que a onda mental do instrumento mediúnico somente em circunstâncias muito especiais não se deixará influenciar pelos elementos discordantes, invalidando-se, desse modo, qualquer possibilidade de êxito nos tentames empreendidos.

Nesse campo, as formas-pensamentos adquirem fundamental importância, porque todo objeto deliberadamente psicometrado já foi alvo de particularizada atenção.

Quem apresenta ao psicômetra um pertence de antepassados, na maioria das vezes já lhe invocou a memória e, com isso, quando não tenha atraído para o objeto o interesse afetivo, no Plano Espiritual, terá desenhado mentalmente os seus traços ou quadros alusivos as reminiscências de que disponha, estabelecendo, assim, recursos de indução para que ao percepções ultra-sensoriais do médium se lhe coloquem no campo vibratório correspondente.

CASO DE DESAPARECIMENTO - Noutro aspecto, imaginemos que determinado objeto seja conduzido ao sensitivo para ser psicometrado, com vistas a certos objetivos.

Para clarear a asserção, suponhamos que uma pessoa acaba de desaparecer do quadro doméstico, sem deixar vestígio.

Buscas minuciosas são empreendidas sem resultado.

Lembra-se alguém de tomar-lhe um doa pertences de uso pessoal. Um lenço por exemplo.

A recordação é submetida a exame de um médium que reside a longa distância, sem que informe algun lhe seja prestado.

O médium recolhe-se e, a breve tempo, voltando da profunda introspecção a que se entregou, descreve, com minúcias, a fisionomia e o caráter do proprietário, reporta-se ao desaparecimento dele, explora sobre pequeninos incidentes em torno do caso em lide, esclarece que o dono desencarnou, de repente, e informa o local em que o cadáver permanece.

Verifica-se a exatidão de todas as notas e, comumente, atribui-se ao psicômetra a autoria integral da descoberta.

Entretanto, analisado o episódio do Plano Espiritual, outras facetas ele revela à visão do observador.

Desencarnado o amigo a que aludimos, afeições que ele possua na esfera extrafísica interessam-se em ajuda-lo, auxilio esse que os estende, naturalmente, à sua equipe doméstica. Pensamentos agoniados daqueles que ficaram e pensamentos ansiosos dos que residem na vanguarda do Espírito entrecruzam-se na procura movimentada.

Alguém sugere a remessa do lenço para investigações psicométricas e a solução aparece coroada de êxito.

Os encarnados vêem habitualmente apenas o sensitivo que entrou em função, mas se esquecem, não raro, dar Inteligências desencarnadas que se lhe incorporam à onda mental, fornecendo-lhe todos os avisos e instruções, atinentes ao feito.

AGENTES INDUZIDOS - Todos os objetos e ambientes psicometrados são, quase sempre, francos mediadores entre a esfera física e a esfera extrafísica, à maneira de agentes fortemente induzidos, estabelecendo fatores de telementação entre os dois planos.

Nada difícil, portanto, entender que, ainda aí prevalece o problema do merecimento e da companhia.

Se o consulente e o experimentador não se revestem de qualidades morais respeitáveis para o encontro do melhor a obter, podem carrear à presença do sensitivo elementos desencarnados menos afins com a tarefa superior a que se propõem, e, se o intermediário humano não está espiritualmente seguro, a consulta ou a experiência resulta em fracasso perfeitamente compreensível.

Nossas anotações, demonstrando o extenso campo da influenciação dos desencarnados, em todas as ocorrências da psicometria, não excluem, como é natural, o reconhecimento de que a matéria assinala sistemas de vibrações, criados pelos contatos com os homens e com os seres inferiores da Natureza, possibilitando as observações inabituais das pessoas dotadas de poderes sensoriais mais profundos, como por exemplo na visão, através de corpos Opacos, na clarividência e na clariaudiência télementadas, na apreensão críptica da sensibilidade e nos diversos recursos radiestésicos que se filiam notadamente aos chamados fenômenos de telestesia.

sábado, 16 de junho de 2012

Da Natureza de Jesus





É muito freqüente no meio espírita a discussão sobre como Jesus o nosso modelo e guia se apresentou aqui entre nós, quando de sua passagem pelo nosso planeta.

Afirmam em sua grande maioria, que o codificador do espiritismo a esse fato não se referiu, preferindo analisar apenas a parte moral do evangelho que segundo entendem, é comum a todas as correntes religiosas.

É claro que como espírita que somos, não podemos deixar de discordar peremptoriamente de tantos quanto assim pensam, pois na própria codificação nós temos a resposta clara, e absolutamente esclarecedora que não nos pode deixar a mínima dúvida quanto ao assunto, vejamos o que nos fala a esse respeito o próprio Allan Kardec:

A Gênese

CAPÍTULO XV – Os Milagres do Evangelho

Superioridade da Natureza de Jesus

“...Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal de cujas fraquezas não era passível” ...( item 2).

“A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporeidade. São acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se produzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É tão marcada a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados."

"O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita, propriedades que diferem essencialmente das dos fluidos etéreos; naquela, a desorganização se opera pela ruptura da coesão molecular. Ao penetrar no corpo material, um instrumento cortante lhe divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo. Não existindo nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já não repousa no jogo de órgãos especiais e não se podem produzir desordens análogas àquelas. Um instrumento cortante ou outro qualquer penetra num corpo fluídico como se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar qualquer lesão. Tal a razão por que não podem morrer os corpos dessa espécie e por que os seres fluídicos, designados pelo nome de agêneres, não podem ser mortos."

"Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos o puderam ver e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não morreu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é que carnal era o seu corpo. Por virtude das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Quem sofre não é o corpo, é o Espírito recebendo o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo sem Espírito, absolutamente nula é a sensação. Pela mesma razão, o Espírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda gente”. (item 65).

“Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais."

"Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem”. (1)

"Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência. (Item 66)."

(1) Nota da Editora: Diante das comunicações e dos fenômenos surgidos após a partida de Kardec, concluiu-se que não houve realmente vão simulacro, como igualmente não houve simulacro de Jesus, após a sua morte, ao pronunciar as palavras que foram registradas por Lucas (24:39): - "Sou eu mesmo, apalpai-me e vede, porque um Espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho."

Ante o exposto na própria obra da codificação, como espírita que nos dizemos ser, procuremos nos orientar pelos ensinamentos daquele que foi considerado como o bom senso encarnado, e estarmos atentos aos ensinamentos do insigne codificador, não nos deixando envolver por aqueles que querem de alguma forma encontrar brechas no trabalho incomparável e insuperável desse espírito que realizou toda sua obra com decência, dignidade, perseverança e maestria. Não temos razão para esse tipo de dúvida, pois se raciocinarmos em tudo que aqui foi colocado por Kardec, Jesus quando conosco esteve, também se utilizou do material que o nosso planeta lhe propiciava para sua tarefa de transformação da humanidade, sendo por isso modelo e guia para todos nós, mostrando-nos que é possível viver neste planeta tirando dele o melhor para a nossa elevação moral como espíritos eternos que somos, mesmo tendo ainda que nos valer deste instrumento ainda tão rude em termos de vida espiritual.

Não teria sentido algum fazer tudo o que Jesus fez usando de privilégio que se a ele fosse dado, estaria ferindo o princípio da igualdade apregoada pelos espíritos superiores a Kardec, onde afirmam em o Livro dos Espíritos que todos somos iguais perante a lei de Deus nosso pai e criador.

Sua superioridade se dava por conta do grau de pureza espiritual, pelo seu completo desenvolvimento intelectual e moral, e não por ter herdado do pai eterno um instrumento melhor que o nosso para seu deleite. Por isso tudo que a codificação nos dá de esclarecimento sobre esse assunto, cabe-nos uma simples pergunta: o que mais queriam esses nossos irmãos que o codificador dissesse a respeito de assunto tão claro?

Francisco Rebouças.